[Edição Especial] Marcello Di Gregorio: o legado amazônico e a transformação da Super Terminais

Aos apenas 20 anos, Marcello Di Gregorio iniciou sua trajetória no mundo da logística e do comércio exterior, antes de retornar aos negócios da família fundados por seu pai, Franco, em Manaus, em 1977. Desde então, a família tornou-se pioneira da logística amazônica, transportando cargas da floresta para São Paulo e lançando as bases de um porto que mudaria a história do transporte no Brasil.

“A história da família começou aqui em 1977. Meu pai, Franco, foi pioneiro em trazer a logística para a Amazônia, que anteriormente era realizada principalmente por meio do transporte aéreo. Naquele ano, ele veio a Manaus para levar radiocomunicadores a São Paulo, com o objetivo de abastecer as linhas de produção da indústria automotiva do ABC paulista. Desde então, este estado nos acolheu. É um estado que recebeu a família, e a família está aqui de coração e também por direito.”

Marcello assumiu a liderança da Super Terminais em 2022, em meio à pandemia, com a missão de transformá-la em uma referência em sustentabilidade e tecnologia.

“Quando assumi o terminal em 2022, uma das minhas missões foi torná-lo uma referência, principalmente em sustentabilidade e tecnologia, tanto em equipamentos quanto em sistemas. Visitei terminais no Brasil e no exterior para conhecer as melhores práticas. Acredito que conseguimos trazer essa experiência, extremamente enriquecedora, porque estamos no coração da floresta amazônica e enfrentamos desafios que outros terminais não enfrentam.”

A logística na Amazônia, marcada por períodos de seca e cheia que podem variar até 20 metros ao longo do ano, exige soluções inovadoras.

“A logística na Amazônia é muito complexa. Sabemos disso porque operamos neste terminal há 50 anos. Existem variáveis que precisam ser consideradas ao longo do ano. A principal delas é o período de seca e de cheia. Durante seis meses trabalhamos com seca e durante outros seis meses com cheia em Manaus. O nível do rio varia entre 17 e 20 metros todos os anos. Por isso contamos com nosso módulo flutuante.”

Esse desafio se intensificou com as recentes crises climáticas.

“A cada ano, as crises climáticas se tornam mais frequentes. Em 2024 enfrentamos a pior seca já registrada aqui. Na verdade, entre 2023 e 2024 vivemos as piores secas em Manaus. Em 2023, a Super Terminais ficou cerca de 45 dias sem receber navios. Com base nos dados disponíveis, sabíamos que em 2024 a seca seria ainda mais severa. Por isso, transferimos três módulos com guindastes para Itacoatiara, uma cidade a 300 quilômetros de Manaus, onde realizamos uma operação de transbordo que movimentou 27 navios e aproximadamente 33.000 contêineres, totalizando cerca de 840.000 toneladas.”

A dimensão desse esforço é vital para o Brasil. Manaus consolidou-se como um polo produtivo estratégico de bens altamente demandados no mercado interno, como aparelhos de ar-condicionado, eletrônicos e motocicletas.

“Cem por cento dos televisores de até 55 polegadas produzidos e consumidos no Brasil são fabricados em Manaus. Cem por cento das motocicletas de até 250 cilindradas são produzidas na Amazônia. Os equipamentos de ar-condicionado de até 32.000 BTUs também são fabricados aqui. Toda essa produção é destinada ao mercado interno. A importância de Manaus para o mercado brasileiro nesses segmentos é absoluta: o Brasil depende 100% de Manaus para ar-condicionado, eletrônicos e motocicletas.”

A Super Terminais consolidou-se como um eixo logístico estratégico, recebendo aproximadamente 50% dos contêineres de importação e cerca de 20% dos contêineres de cabotagem que chegam a Manaus.

“Pode-se afirmar que cerca de 40% do volume de motocicletas, aparelhos de ar-condicionado, televisores e monitores que entram e saem de Manaus passam pela Super Terminais.”

A conexão com a Ásia é outro pilar dessa epopeia logística.

“Sessenta por cento das matérias-primas vêm da Ásia e abastecem as fábricas de Manaus. O transit time é de aproximadamente 45 dias desde a saída da carga da China até sua chegada a Manaus. Atualmente contamos com sete serviços transpacíficos que partem da Ásia, passam pelo Panamá e, a partir de lá, um navio semanal segue para Manaus trazendo matérias-primas. Os navios saem do Panamá, fazem escala em Port of Spain, em Trinidad e Tobago, descarregam ali e seguem viagem até Manaus.”

Essa rota fluvial, que entra pelo Estreito de Macapá e percorre cerca de 2.000 quilômetros pelo rio Amazonas em quatro ou cinco dias, é a artéria que conecta a floresta ao mundo.

A modernização do porto tem sido contínua: das primeiras operações em 1996, passando pela instalação dos berços em 2003, pela chegada dos primeiros guindastes em 2009, até a atual expansão para onze equipamentos e 600 metros de cais, com projeção de chegar a 720 metros.

“A Kalmar é nossa parceira há praticamente 30 anos. Somos muito gratos a essa empresa. Eles acompanharam nossa evolução, e nós acompanhamos a deles também, inclusive no que diz respeito a terminal tractors, stackers e empty handlers. Cem por cento dos nossos equipamentos são Kalmar. Conhecemos a qualidade do serviço e dos equipamentos, e temos muito orgulho e honra em manter essa parceria com uma empresa tão respeitada.”

Marcello projeta o futuro com clareza e propósito.

“O legado que quero deixar é construir uma empresa sólida, perene e humanizada. Uma empresa que se preocupe não apenas com a comunidade, mas também com o meio ambiente. Todos temos um objetivo, e acredito que o nosso seja construir um futuro melhor para o Estado do Amazonas, para a região Norte do país e para o Brasil.”

“Embora a Super Terminais tenha apenas 30 anos, o grupo completará 50 anos em 2027. Esse é o segredo: somos uma empresa transparente, séria, com propósito, com processos bem definidos, que valoriza seus colaboradores, sua localização e o meio ambiente.”

“Minha visão para os próximos dez anos é que a Super Terminais seja um benchmark, tanto no aspecto ambiental quanto no tecnológico. Com os investimentos que realizamos, não estamos longe desse objetivo e contamos com nossos parceiros para alcançá-lo. Em dez anos, queremos ter os equipamentos mais modernos, os melhores processos e as melhores operações do Brasil. Faço com que cada movimento conte.”

Assim, a história de Marcello Di Gregorio e da Super Terminais se consolida como um relato de resiliência e grandeza: das águas do Amazonas às rotas globais, um porto que honra o legado familiar e projeta o futuro da logística brasileira com visão, sustentabilidade e modernidade.

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