Roberto Paveck é economista e acadêmico, especialista em inovação e gestão portuária, além de ser colunista do PortalPortuario.
Em 2026, iniciamos o ano com uma notícia aguardada por mais de duas décadas: após 25 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia finalmente saiu do papel. Trata-se de um passo relevante para a inserção internacional da região e de uma clara sinalização de reaproximação entre dois blocos econômicos que, juntos, respondem por cerca de 25% do PIB mundial. Para além do simbolismo político, o acordo traz implicações concretas para o setor produtivo, para a logística e, de forma bastante direta, para os portos do Mercosul.
No campo comercial, a redução gradual de tarifas, a criação de cotas preferenciais e a diminuição de barreiras não tarifárias tendem a ampliar o fluxo de mercadorias entre os dois blocos. O comércio bilateral já é expressivo, mas ainda marcado por uma pauta relativamente previsível: de um lado, a exportação de produtos primários sul-americanos; de outro, a importação de bens manufaturados europeus. A expectativa é de crescimento tanto em valor quanto em volume físico, o que inevitavelmente se traduz em maior demanda sobre a infraestrutura logística e portuária da região.
Como exemplo, para o Brasil, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta que a entrada em vigor do acordo Mercosul–União Europeia poderia elevar o PIB em 0,46% até 2040, o equivalente a cerca de USD 9,3 bilhões a preços constantes de 2023, além de estimular os investimentos em 1,49% e gerar ganho líquido na balança comercial. O mesmo estudo aponta um crescimento mais intenso das importações nos primeiros anos, puxado sobretudo por bens de capital e insumos, e um aumento contínuo das exportações ao longo do período.
Para os portos, esse movimento traz desafios operacionais conhecidos. Mais navios, maiores volumes e exigências crescentes de previsibilidade e confiabilidade tendem a expor, com mais intensidade, gargalos já mapeados: limitações de capacidade, tempos de espera elevados, integração ainda insuficiente entre modais e processos administrativos que, em muitos casos, permanecem excessivamente burocráticos. Nesse contexto, pouco adiantará o ganho de competitividade proporcionado pelo acordo se a logística não for capaz de escoar esses fluxos com eficiência e custos compatíveis com o mercado internacional.
Ao mesmo tempo, o acordo revela uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada, mas de grande relevância: a redução do custo de importação de bens de produção e insumos industriais provenientes da União Europeia. A eliminação ou diminuição de tarifas sobre máquinas, equipamentos e tecnologias tende a ampliar e diversificar a origem desses bens, hoje fortemente concentrada na Ásia, em especial na China. Sob a ótica portuária, essa diversificação amplia o conjunto de alternativas disponíveis aos terminais, estimula a concorrência entre fornecedores e pode contribuir para a elevação do padrão tecnológico do setor. Não se trata de alterar a realidade operacional dos portos, mas de criar um ambiente mais favorável a decisões de investimento e a processos graduais de modernização.
O acordo Mercosul–União Europeia não deve ser interpretado apenas como um estímulo ao aumento de volumes, mas como um potencial indutor de transformações estruturais. Para os portos, ele explicita a necessidade de operar em um ambiente de maior competição internacional, maior complexidade logística e exigências crescentes por parte dos embarcadores. Isso passa pela ampliação da capacidade física, mas, sobretudo, pela revisão de modelos de gestão, de arranjos de governança, do uso estratégico de dados e do nível de integração entre os diferentes atores da comunidade portuária.
Ainda assim, embora o acordo crie condições favoráveis para o crescimento do comércio e para a diversificação produtiva da região, seus efeitos estão longe de ser automáticos ou garantidos. O novo ambiente comercial será mais exigente e menos tolerante a ineficiências, o que tende a tornar os gargalos logísticos existentes ainda mais visíveis. A questão central, portanto, não é se o comércio vai crescer, mas se os portos da região estarão preparados para transformar essa oportunidade em ganhos reais de competitividade.












